Antes de contar histórias de relógios, eu vivi a minha com eles
Meu nome é Juliano, e minha história com os relógios começou muito antes de eu entender movimentos, calibres, referências ou a importância de determinados modelos para a relojoaria.
Ela começou com a curiosidade de um menino, passou pelo trabalho e pelo esforço para conquistar o primeiro relógio e, muitos anos depois, transformou-se em uma paixão por história, mecânica, legado e propósito.
A curiosidade começou em família
Eu cresci vendo meu pai, meus tios e meu avô usando relógios Orient.
Eram relógios bonitos, com mostradores e detalhes em cores marcantes: azul, verde, vermelho e dourado. Cada um tinha sua personalidade, mas havia um costume que sempre chamava minha atenção.
Entre um momento e outro, eles balançavam discretamente o pulso.
A curiosidade de menino aparecia imediatamente:
— Por que o senhor está fazendo isso?
— Para dar corda no relógio.
Aquilo me deixava intrigado. Eu tentava imaginar como um relógio funcionava por dentro. Como um simples movimento do pulso poderia manter os ponteiros trabalhando? O que existia dentro daquela pequena caixa para transformar movimento em passagem do tempo?
Durante muito tempo, não tive a oportunidade de abrir um relógio e descobrir.
Até que, certo dia, acompanhei meu pai a um relojoeiro e vi, pela primeira vez, um relógio Orient aberto.
Aquilo me fascinou.
As pequenas engrenagens, o movimento das peças e a precisão de um mecanismo tão complexo funcionando em um espaço tão reduzido despertaram algo em mim. Eu queria compreender como o movimento do pulso era transmitido ao mecanismo e como todas aquelas peças conseguiam trabalhar juntas para marcar o tempo.
Essa curiosidade também tinha ligação com a minha própria vida.
Desde muito jovem, eu trabalhava com meu pai em uma metalúrgica, operando torno mecânico. Essa foi minha profissão até os 18 anos. A mecânica, a precisão e a engenharia das coisas já faziam parte do meu cotidiano.
Por isso, quando descobri como funcionava um relógio, não enxerguei apenas ponteiros marcando as horas. Enxerguei uma máquina em miniatura.
O fascínio por aquele mecanismo me acompanhou por muitos anos — e continua comigo até hoje.
O primeiro relógio conquistado
Em 1996, eu ainda era muito jovem e já ajudava minha mãe nas despesas de casa. Vendia pão pelas ruas e guardava uma parte do dinheiro que conseguia ganhar.
Foi assim que comprei meu primeiro relógio: um Casio F-91W.
Era um relógio pequeno, preto, digital e simples. Para mim, porém, representava muito mais do que apenas saber as horas. Ele havia sido comprado com o resultado do meu próprio trabalho.
Naquela época, possuir um relógio conhecido era uma conquista. Não era um objeto que se trocava com frequência nem uma compra feita por impulso. Era algo desejado, planejado e alcançado aos poucos.
Aquele Casio foi o começo da minha própria trajetória com os relógios.

Um ano por um Technos Skydiver
Algum tempo depois, apareceu um relógio que tomou conta da minha imaginação: o Technos Skydiver.
Nos anos 1990, a Technos tinha uma presença muito forte. Seus modelos esportivos conversavam diretamente com os jovens, e o Skydiver parecia representar tudo aquilo que eu desejava: resistência, personalidade e aventura.
O modelo que chamou minha atenção tinha acabamento prateado, em uma tonalidade que lembrava alumínio, e detalhes dourados nos índices. Era esportivo, moderno e completamente diferente dos relógios mais tradicionais que eu via os adultos usando.
Eu decidi que teria aquele relógio.
Trabalhando com meu pai na metalúrgica, guardei dinheiro durante quase um ano.

Por volta de 1998, finalmente consegui comprar o Technos Skydiver.
Não foi apenas uma compra. Foi uma conquista construída durante meses.
Quando coloquei aquele relógio no pulso, ele representava cada dia de trabalho, cada valor economizado e a satisfação de alcançar algo que, durante muito tempo, havia sido somente um desejo.
Talvez seja por isso que os relógios esportivos ainda tenham um significado tão forte para mim.

Um Dumont e outra forma de enxergar os relógios
Em 1999, surgiu outro relógio importante nessa trajetória: um Dumont social usado.
Eu o consegui por meio de uma troca. Foi uma forma diferente de chegar a um relógio e de acrescentar uma nova peça à minha história.
O Dumont também me apresentou outro lado da relojoaria. Se o Technos Skydiver representava esporte e aventura, aquele relógio social mostrava que uma peça também poderia transmitir elegância, discrição e personalidade.
Aos poucos, sem perceber, eu começava a entender que cada relógio poderia ocupar um espaço diferente na vida de uma pessoa.
Relógios que precisaram partir
Depois dessa fase, deixei minha cidade para trabalhar e precisei vender meus relógios. Em determinados momentos da vida, aquilo que possui valor sentimental também precisa dar lugar às necessidades mais urgentes.
Em 2001, consegui comprar um Orient. Entretanto, uma dificuldade financeira fez com que eu também precisasse vendê-lo.
Passei mais algum tempo sem relógio. Quando já estava casado, consegui comprar outro Technos, desta vez um modelo analógico, social e mais simples. Ele permaneceu comigo durante anos, até a pulseira estragar e o relógio parar de funcionar.
Mesmo sem perceber, a Technos continuava retornando à minha vida.
Outros relógios vieram depois, principalmente modelos da Technos e da Casio. Dois desses Technos, comprados muitos anos atrás, continuam guardados comigo. Hoje quase não os utilizo, mas não pretendo me desfazer deles.
O valor que carregam não está no mercado. Está na memória.
Os Orients que hoje fazem falta
Com o passar dos anos, também mudou a maneira como eu enxergava os relógios da minha família.
Meu pai tinha um Orient com mostrador azul. Meu avô usava um Orient de mostrador verde. Quando eu era jovem, considerava aqueles modelos relógios de pessoas mais velhas. Como muitos adolescentes dos anos 1990, eu queria peças esportivas e modernas, diferentes daquelas que meu pai, meus tios e meu avô usavam.
Hoje, minha visão é completamente diferente.
Gostaria de ter aqueles relógios na minha coleção. Não apenas por serem Orients antigos, mas porque carregavam os hábitos, a presença e a história de pessoas importantes para mim.
Aquele movimento discreto do pulso, que despertava minha curiosidade quando criança, hoje representa uma memória que nenhum relógio novo poderia substituir.
Com o tempo, compreendi que um relógio pode continuar contando a história de alguém mesmo quando essa pessoa já não está usando a peça.
Quando colecionar ganhou significado
Sempre gostei de guardar e colecionar objetos. Durante muito tempo, escolhi relógios principalmente porque os considerava bonitos. Gostava de tê-los, mas ainda não compreendia completamente o que existia por trás de cada modelo.
De um tempo para cá, passei a conhecer melhor os relógios que possuía. Comecei a pesquisar por que haviam sido criados, em que contexto surgiram, para qual finalidade foram desenvolvidos e o que representaram em sua época.
Foi quando tudo mudou.
Os relógios deixaram de ser apenas objetos bonitos e passaram a funcionar como pequenas cápsulas do tempo. Cada caixa, mostrador, movimento e escolha de construção poderia revelar uma necessidade, uma aventura ou uma transformação da sociedade.
Essa descoberta uniu três coisas que sempre fizeram parte de mim: o gosto por colecionar, a curiosidade pela mecânica e a paixão pela história.
Desde criança, sou fascinado por civilizações antigas, pelo Egito, por Roma, pelos dinossauros e pelos acontecimentos que ajudaram a construir o mundo. História sempre foi a matéria que mais despertou minha curiosidade.
Quando percebi que a relojoaria também estava ligada à aviação, ao mergulho, às guerras, às expedições, ao automobilismo e até à exploração espacial, encontrei uma nova maneira de viver essa paixão.
História, legado e propósito
Hoje, minha coleção é formada principalmente por relógios esportivos e divers. Essa preferência nasceu com os relógios que admirava na juventude e permaneceu comigo.
Gosto do diver porque ele foi pensado como uma ferramenta. É resistente, legível e versátil. Pode acompanhar o trabalho, o lazer e diferentes momentos da vida. Dependendo do modelo, também pode ser usado em um ambiente social sem perder sua identidade.
Mas minha escolha não depende apenas da aparência.
Eu não sou movido por hype ou por aquilo que está na moda. Posso conhecer o assunto e entender por que determinado relógio se tornou popular, mas isso, sozinho, não determina o que merece entrar na minha coleção.
O que realmente me interessa é a história.
Por que esse relógio foi criado? Que problema precisava resolver? Foi apenas uma tendência ou serviu como ferramenta? Acompanhou mergulhadores, pilotos, militares, exploradores ou pessoas comuns em momentos importantes?
Sou movido por história, legado e propósito.
O nascimento de A Gente Curte Relógios
Foi da união entre minha paixão por relógios, minha curiosidade pela mecânica, meu interesse pela história e o carinho por cada peça da minha coleção que nasceu o canal A Gente Curte Relógios.
Antes de produzir conteúdo, eu já havia vivido diferentes fases ao lado deles. Trabalhei para comprar relógios, precisei vendê-los, passei períodos sem nenhum e, mais tarde, voltei a colecionar.
Quando comecei a compreender o que existia por trás de cada modelo, percebi que poderia transformar toda essa experiência em histórias.
Hoje, pesquiso, escrevo, apresento, dirijo e edito cada conteúdo do canal. Tudo começa do zero, com a vontade de descobrir por que determinado relógio merece ser lembrado.
Não quero apenas mostrar uma peça ou repetir suas especificações. Quero entender seu contexto, sua utilização e seu significado. Quero fazer com que as pessoas olhem para um relógio e enxerguem mais do que metal, ponteiros e engrenagens.
Porque um relógio pode marcar uma conquista, atravessar gerações, carregar a memória de uma família ou representar um momento inteiro da vida.

O meu primeiro relógio foi conquistado com o dinheiro da venda de pão pelas ruas. O Technos Skydiver exigiu quase um ano de trabalho. E os Orients do meu pai, dos meus tios e do meu avô despertaram uma curiosidade que continua viva dentro de mim.
Foi essa trajetória que me transformou em colecionador e, mais tarde, deu origem ao A Gente Curte Relógios.
Antes de contar histórias de relógios, eu vivi a minha com eles.
Eu sou o Juliano — e a gente curte relógios.
